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A Solidariedade não Conhece Fronteiras.


A Solidariedade não Conhece Fronteiras. 3

Tu que és uma mulher inspiradora, diz-nos…

Chamo-me Ana Cancela, vivo no Porto e sou responsável pela loja japonesa Kuri Kuri. Gosto muito de tricotar, de ler, dos meus cães e de viajar. Gosto de conhecer o mundo e os outros. Talvez por isso, há coisas que, para mim, são naturais.

No passado dia 28 de setembro estava na casa dos meus pais a ver televisão quando me apercebi da divisão entre a opinião pública quanto à questão dos refugiados e fiquei chocada com tanta ignorância e xenofobia, assim como com o número de pessoas a fugirem das suas casas, em busca de um lugar seguro. Nesse mesmo instante, decidi entregar uma tonelada de bens num campo de refugiados. Na hora que se seguiu analisei a situação nos Balcãs e entrei em contacto com a Cruz Vermelha croata, organização que me pareceu a mais adequada e com recursos de logística final para receber bens e distribui-los no local.

No mesmo dia criei o grupo A Solidariedade não Conhece Fronteiras e fiz um pedido público de roupa quente para senhora, homem, bebé e criança. Em apenas algumas horas, o grupo passou de meia dúzia de pessoas para as centenas. Em apenas dois dias foram-se juntando amigos vários, grupos como a Margem, os Farmacêuticos Solidários, a Central Mensageiro do Porto e Lisboa, e largas centenas de pessoas e grupos de todo o país, unidos pela vontade de ajudar na recolha destes bens. Em poucos dias, contávamos com cerca de trinta pontos de recolha, espalhados um pouco por todo o país. Este movimento uniu-se ao grupo IT’S OUR PROBLEM que estava, desde o início de setembro, a estudar a melhor forma de intervir no terreno e a organizar recolhas, tendo sido o responsável pela organização final e envio de todo o material. Conseguimos enviar dois camiões TIR para a Croácia e ainda um terceiro para a Grécia. Muito mais do que poderia imaginar quando decidi abraçar esta causa.

Um fluxo ininterrupto de gente. Um olhar de esperança.

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Portugal é absolutamente um país solidário. A minha experiência é testemunha clara e inequívoca disso mesmo. Em poucos dias a mobilização foi inacreditável, tanto para as recolhas e triagem, como no cuidado com que centenas de pessoas assistiram, ansiosas e atentas, a todo o processo.

A viagem ao campo de refugiados de Gevgelija, na fronteira entre a Macedónia e a Grécia, foi o culminar de toda a ação. Queria estar no campo aquando da chegada dos camiões, facto que se tornou impossível por motivos alfandegários burocráticos. Nesse sentido, e acompanhada por outros portugueses, a Sandra que viajou comigo, a Mariana, a Cláudia, a Rita, o Pedro e a Edite, prestámos assistência aos refugiados, dando explicações, oferecendo água e comida, dando uma palavra de carinho e alento.

Pelo campo de Gevgelija passam em média cerca de 10 000 pessoas por dia. É um fluxo ininterrupto de gente. Os grupos passam primeiro pelo campo de Idomeni na Grécia, andam a pé cerca de 500m e chegam a Gevgelija, um campo transitório, no qual obtêm o visto temporário para atravessarem o país. Do campo partem autocarros, o comboio e táxis com destino a Tabanovce, perto da fronteira com a Sérvia. De comboio são 25 euros por pessoa, sendo que o preço anterior a este êxodo era apenas de 5 euros, um quinto do preço.  São grupos de cerca de 100 pessoas de cada vez mas o tempo entre cada grupo, por vezes, é de apenas poucos minutos. Tentei falar com o máximo possível de pessoas, saber o que passaram para ali chegar. Invariavelmente, os relatos eram de puro terror, histórias de casas destruídas, de países em guerra e conflitos civis, de minorias étnicas em risco de vida. São sírios mas também iraquianos, afegãos, paquistaneses, da Eritreia, do Sudão… Em quase todas as pessoas vislumbrei um olhar de esperança.

 

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Tudo é possível.

As autoridades alfandegárias da Macedónia desiludiram-nos profundamente pois, não permitiram a entrada dos bens no próprio país, assim como colocaram sérios entraves na saída dos camiões. Quanto ao silêncio das instituições europeias, acho mais do que vergonhosa toda esta situação. É chocante o facto de ainda não se terem tomado medidas para a recolocação de todas estas pessoas. Sobretudo medidas preventivas para evitar todos os milhares de mortes que acontecem no Mediterrâneo.

No último mês dediquei, praticamente, todo o meu tempo a esta causa. Nos dias da entrega, no armazém, das recolhas a nível nacional, quase nem tempo tive para dormir. Felizmente, abracei esta causa porque tive todo o apoio da minha família, sem a qual nada teria sido possível, assim como da minha equipa de trabalho que se formou espontaneamente – Edite, Bárbara, Filipa, Justino e Sandra. Para compatibilizar ações deste tipo com a vida familiar e profissional, é fundamental toda uma equipa de trabalho coordenada e um pouco de planeamento. Assim, tudo é possível.

Daqui a uns dias parto para a Palestina, pela segunda vez este ano, com um pequeno projeto que tenho, Knitting Freedom, o qual alia uma das minhas paixões, o tricot, e a ajuda a meninos órfãos. Consiste em duas ações. Uma é oferecer peças tricotadas, diretamente a quem precisa, outra é ensinar a tricotar. Não só dar mas ensinar a fazer, ajudando a proporcionar o conhecimento e a independência.

Amanhã poderemos ser nós.

Sermos solidários não deveria ser um objetivo mas sim algo inerente à vida em sociedade. Só com o profundo respeito pelos outros o mundo será um lugar melhor. Hoje são estas pessoas, estas famílias, amanhã poderemos ser nós.

A Europa mudou, o mundo mudou. Eu também mudei. Com esta experiência, fiquei ainda muito mais sensível às questões que me rodeiam e mais atenta às necessidades das pessoas à minha volta. Antes de embarcar, pensava que se conseguisse ajudar uma única pessoa a viagem já teria valido a pena. Com a ajuda de todos os que se envolveram nesta causa, milhares de pessoas irão passar uma noite menos fria. Sei que é apenas uma gota num oceano que é o seu longo percurso, mas todos os sorrisos que recebi mostraram-me que qualquer gesto, por muito pequeno que seja, pode tornar a vida de outros mais suportável. E isso é bom.

Créditos das Imagens: Ana Cancela e Sandra Ribeiro
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